terça-feira, 5 de novembro de 2013

OITO E MEIO DE FELLINI - DIRETOR ITALIANO EM CRISE EXISTENCIAL FAZ FILME CLÁSSICO

 

Alvo das mais variadas análises e interpretações e vencedor de diversos prêmios, Oito e Meio (1963) é o filme autobiográfico de Federico Fellini.


Gérson Trajano
Arquivo
Oito e Meio (1963) é o filme autobiográfico de Federico Fellini. O longa-metragem é marcado por reflexão, evocação e pela predominância da memória e das recordações de infância. O título deve-se ao fato de o diretor ter, até aquele momento, assinado seis longas e ter co-dirigido outros três filmes. Na contabilidade do diretor, cada longa em forma colaborativa vale meio filme. Este, então seria o “8 ½”.
 
Marcello Mastroianni vive o cineasta Guido Anselmi, que ainda não tem ideia de como será o próximo filme que irá fazer. Mergulhado em uma crise existencial e pressionado pelo produtor, passa a misturar o passado com o presente. O filme não é uma sequência lógica linear de acontecimentos e abusa dos flashbacks, sem distinguir para o público o que é sonho e o que é realidade.
 
“Essa história de confusão mental é típica dos reacionários, que acham necessário ter ideias claras sobre tudo, interpretar tudo de modo racional, sem precisar duvidar de nada”, disse o diretor, rebatendo as críticas de que a obra era confusa e de difícil compreensão.
 
As reflexões sobre os postulados da igreja católica e a relação com as mulheres da sua vida ocupam boa parte da película. Em um dos seus delírios, Guido imagina reunir em uma mesma casa todas as mulheres que deseja ter. Desde Saraghina (Eddra Galé), cobiçada na infância, a esposa Luisa, interpretada por Anouk Aimeé, até a amante Carla, representada pela atriz Sandra Milo.
 
Guido idealiza um verdadeiro harém. Mas em determinado momento, logo após um banho de sauna, enrolado em um lençol, de chapéu e embalado pelo som da Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner, empunha um chicote e começa a açoitar as mulheres, que haviam se rebelado contra ele.
 
Para o crítico Roberto Schwartz, no ensaio Menino Perdido e a Indústria, publicado no livro A Sereia e o Desconfiado – Ensaios Críticos, da editora Civilização Brasileira (1965), a profissão de Guido é o contexto indispensável para Oito e Meio. Segundo ele, em contato com a indústria do cinema os problemas tradicionais de um artista tomam feição nova e piorada.
 
“Fosse escritor, Guido poderia atrapalhar, com suas fixações, a vida de três, quatro, cinco mulheres. Muito mais é impossível, para quem corteja com recursos pessoais. Mas Guido é diretor de cinema: tem as mulheres da nação a seu dispor, ao dispor de suas manias, e irá atormentá-las segundo a sua semelhança maior ou menor com os mitos infantis”, escreve Schwartz.
 
Guido não consegue definir atores, cenários e nem um argumento para a história. Personagens do filme o acusam de não saber escrever sobre o amor, a esperança e que suas ideias não têm profundidade filosófica. Durante uma coletiva de imprensa, os jornalistas o apontam como uma fraude. Vê-se então acuado e abandonado por suas mulheres. Foge para debaixo da mesa, onde comete suicídio.
 
 
Oito e Meio é alvo das mais variadas análises e interpretações. O que distingue a sua função artística da prática. Foi o ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro e de melhor figurino preto e branco, em 1964. Recebeu também o prêmio máximo no festival de cinema de Moscou, em 1963.

CABIRIA, A INGÊNUA PROSTITUTA DE FELLINI

 

Giulietta Masina é destaque em Noites de Cabíria (1958), filme sobre a prostituta pobre e de olhar melancólico que sempre acredita nos homens.


Gérson Trajano
Divulgação
Noites de Cabíria, de Federico Fellini, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1958. Com ele, Giulietta Masina, esposa do diretor, recebeu o prêmio de melhor atriz no festival de Cannes, interpretando uma prostituta pobre de olhar melancólico, moradora na periferia de Roma e que sempre é enganada pelos homens.
 
Logo no início do filme, o seu namorado, Giorgio (Franco Fabrizi), a joga no rio, momentos depois de roubar-lhe a bolsa. Resgatada, ela custa a acreditar que seu amante tenha tentado matá-la e fugir com o seu dinheiro. Com a ajuda das amigas, ela se refaz do atentado e segue a vida.
 
Mas Cabíria se apaixona novamente. Agora por Oscar D’Onofrio (François Périer), que mesmo sem a conhecê-la direito lhe propõem casamento. Atraída pela simpatia do moço, aceita o convite, vende sua casa, os móveis, reúne todas as suas economias e decide partir com seu novo amor. Avisa para as amigas que vai se casar.
 
O sujeito tem tudo planejado. Depois de um belo almoço, regado com vinho, ele a leva para passear à beira de um lago. O fim de tarde está esplendoroso e sua noiva efusiva. Mas D’Onofrio se mostra nervoso e tenso. Ao ponto de perguntar a Cabíria se ela sabe nadar. Ela então compreende o que está para acontecer. Desesperada, entrega sua bolsa, mas implora para que ele a mate. Ela não quer mais viver.
 
Cabíria não tem realmente sorte com os homens por quem se apaixona. Antes mesmo de conhecer D’Onofrio, ela se envolve com Alberto Lazzari (Amedeo Nazzari), um astro de cinema que a usa para esquecer uma crise conjugal.
 
Humilhada e desiludida, acredita que só um milagre poderá mudar sua vida. Ela então participa da procissão de Santa Maria, a fim de receber uma graça da madona. Mas para que isso possa acontecer, é preciso pagar para entrar no santuário, comprar velas para realizar um pedido e passar horas em penitência. E por fim, a benção não vem.
 
Cansada da realidade, Cabíria visita um teatro mambembe, onde um mágico (Aldo Silvani) pede para que ela suba ao palco e participe de um número de encantamento. Hipnotizada pelo ilusionista, revela seus sonhos e desejos mais íntimos para a plateia, que ri da sua história. Quando volta a si, percebe que foi motivo de troça..
 
 
A história da prostituta ingênua, carente, que sonha ter um marido, uma família e uma vida amparada em um amor romântico, também foi adaptada para um musical da Brodway e depois virou filme de Hollywood, ambos com o titulo de Sweet Charity e sob a direção de Bob Fosse. Em 1987, Caetano Veloso musicou o tema do filme, em uma das faixas de seu disco Caetano.

A DOCE VIDA, A SOCIEDADE DA APARÊNCIA

A Doce Vida, a sociedade da aparência

Na obra-prima de Fellini há prostitutas, fotógrafos, aristocratas decadentes, burguesas deprimidas, estrelas de cinema e um povo que acredita em milagres.


Gérson Trajano
Arquivo
Em A Doce Vida (1960), de Federico Fellini, há prostitutas, fotógrafos, aristocratas decadentes, burguesas deprimidas, estrelas de cinema e um povo que acredita em milagres. Uma sociedade italiana fragmentada que se refaz das ruínas da Segunda Guerra Mundial.
 
Há também um jornalista de tablóide sensacionalista, de nome Marcello Rubini (Marcello Mastroianni), que gostaria de ser um escritor sério, um intelectual, mas que se transforma em um publicitário. “Informo que abandonei a literatura e o jornalismo. Estou satisfeito em ser agente publicitário”, declara aos amigos em um bacanal, sem notar a alienação em que está metido.
 
Rubini poderia ter agido de outra forma, pois, mesmo condicionado pela situação, ele seria capaz de transformá-la. Ele não é só vítima da história, mas propulsor dela também. Mas Rubini é uma personagem criada por Fellini justamente para refletir a falta de vontade de uma sociedade contemporânea pautada pelo espetáculo. Ele é o exemplo do triunfo da sociedade de consumo, que surge do pós-Guerra. Uma sociedade de hábitos americanizados, da velocidade, dos carros e da aparência.
 
Não é a toa que Fellini centra seu filme em torno da Via Veneto, uma das ruas mais famosas e caras de Roma, reduto das celebridades, do famoso Café de Paris e do Bar do Harry. Por ironia, a rua abriga ainda a embaixada americana na cidade eterna.
 
Em seu livro, a Sociedade do Espetáculo, Guy Debord afirma que o conceito de espetáculo unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes. Suas diversidades e contrastes são aparências dessa aparência organizada socialmente, que deve ser reconhecida em sua verdade geral.
 
Segundo Debord, o espetáculo é a afirmação da aparência e de toda a vida humana – isto é, social – como simples aparência. Mas a critica que atinge a verdade do espetáculo o descobre como negação visível da vida; como negação da vida que se tornou visível.
 
Neste ambiente, Rubini não consegue impor sua vontade. Ele ambiciona ser como o seu amigo Steiner, um intelectual bem sucedido, casado com uma mulher bonita e inteligente, pai de dois filhos e proprietário de uma bela casa. Para Rubini, Steiner seria o ponto de lucidez em uma vida vazia e insegura. Mas sem deixar nenhuma explicação, o amigo se suicida, além de matar os filhos menores.
 
A Doce Vida tem a estrutura de um mosaico, em que Rubini é o guia dos episódios de uma vida mundana. O filme começa com o repórter em um helicóptero, acompanhando a imagem de um cristo sendo levada para o Vaticano. Quando sobrevoa a cobertura de um apartamento de luxo, tenta chamar a atenção das mulheres que tomam banho de sol.
 
 
Em seguida, à noite, em uma boate, encontra-se com Maddalena (Anouk Aimeé), uma burguesa entediada a procura de aventuras. Na manhã seguinte, ele corre para o aeroporto a fim de acompanhar a chegada de Sylvia Rank, atriz de cinema vivida por Anita Ekberg, por quem fica fascinado. Os dois percorrem juntos alguns pontos turísticos de Roma até a Fonte de Trevi, onde Sylvia resolve tomar um banho e atrai o jornalista.




Créditos da foto: Arquivo

VINTE ANOS SEM FELLINI

 

Critico da igreja católica, do marxismo e da influência norte-americana nos costumes de outros países, diretor tornou seu estilo de cinema em adjetivo.


Gérson Trajano
Samm Wessel
Há 20 anos morria o cineasta Federico Fellini (1920-1993), que ganhou cinco Oscars e mais dezenas de prêmios com os seus filmes. Dirigiu 24 longas-metragens. Premiados cineasta contemporâneos como Woody Allen, David Lynch, David Cronenberg, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Tim Burton e Pedro Almodóvar, já disseram ter sofrido grandes influências do diretor italiano em seus trabalhos.

Leia resenhas dos filmes de Felliniaquiaqui, aqui e aqui 
 
Como não bastasse, Fellini transformou seu modo de fazer cinema em adjetivo. O qualificativo “felliniano”, para designar certos traços ou situações, passou a ser uma marca inconfundível do diretor, e termo usado pela mídia de vários países.
 
Critico da igreja católica, do marxismo, do capitalismo e da influência norte-americana nos costumes de outros países, principalmente na Itália, dizia que o artista, como qualquer homem, precisa enfrentar com decisão as dúvidas e aceitar sua guerra. “Ele não pode achar que tudo já está concordado. É isso que dá dignidade à missão do artista e do homem.”
 
Segundo os críticos, a explicação para a amplitude de sua obra encontra-se no modo como o artista explorou e expôs suas vivências, memórias e visões de mundo de uma forma misturada, com um grande poder de imaginação e criatividade infinita. Ele mesmo gostava de dizer que seu trabalho é somente a sua relação com tudo.
 
Para Luiz Renato Martins, autor do livro Conflito e Interpretação em Fellini (Edusp, 1993), grande parte da iconização de Fellini deve-se ao impacto causado pelo lançamento de A Doce Vida, que segundo ele se destaca dos demais filmes da época por sua orientação temática.
 
“O filme apresenta o poder das relações de mercado moldando a arte, a cultura em geral e a gama das relações humanas em jogo. A força de impacto da obra nasce da exposição dramática das suas condicionantes, redefinindo a imanência do cinema e propondo um olhar mais analítico sobre o mundo das imagens. Opera-se, então, uma conjunção inédita entre referência ao processo e caracterização dos mecanismos de mercado,” afirma Renato Martins.
 
Fellini não gostava de escrever roteiros. Dizia que era uma pena transformar em palavras o que já deveria ser transformado em imagens, em filme. Planejar não era com ele. Preferia improvisar e trabalhar com não-atores. Mas vivia cercado por gente de talento, como o músico Nino Rota, o roteirista Tonino Guerra, o ator Marcello Mastroianni, e Giulietta Masina, sua mulher e atriz.
 
A opção por uma estética fantasista e onírica acaba sendo identificada como um afastamento das suas origens do movimento Neorrealista. Afinal, Fellini é assistente de direção de Roberto Rosselini em Roma, Cidade Aberta, um marco da escola italiana.
 
 
Fellini afirma que sua adesão à realidade é sempre subjetiva e emocional. Para ele, a mentira é sempre mais interessante que a verdade. Chega a declarar que, “a ficção pode nos levar a uma verdade mais aguda que a realidade cotidiana e aparente”.   






Créditos da foto: Samm Wessel